Paralisação de estaleiro provoca demissões na Bahia

08 de junho de 2015
Fonte: Renée Pereira / Estadão
 
 
 
 
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São Roque do Paraguaçu (BA) – A rotina dos moradores do pequeno distrito de São Roque do Paraguaçu, em Maragojipe, no Recôncavo Baiano, sofreu um duro golpe nos últimos meses. Em menos de dois anos, a população local saiu da abundância de emprego ao súbito desemprego, com a paralisação das obras e operação do estaleiro Enseada Indústria Naval – o único grande empreendimento da região. O projeto foi afetado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e está parado. Hoje, menos de 200 pessoas trabalham no local apenas para manter os equipamentos em ordem.

No auge da obra, em março do ano passado, 7.360 funcionários estavam empregados no estaleiro, sendo que 87% da mão de obra morava na região. Só no distrito de São Roque eram mais de mil empregos numa população total de 6 mil pessoas. Quando as demissões em massa começaram, em novembro do ano passado, os moradores locais sentiram em cheio a reversão do cenário. Muitos tinham se endividado para comprar carros, construir ou reformar a casa e agora estão com o nome sujo na praça. Outros investiram todas as economias em negócios próprios que nem puderam ser inaugurados.

A paralisação do estaleiro chegou antes de os pequenos empresários abrirem as portas dos novos estabelecimentos. Sem perspectiva, a população local busca respostas: a principal delas é se o empreendimento voltará à ativa e se os empregos serão retomados. O questionamento, no entanto, está longe de uma solução. Para voltar ao normal, o estaleiro, que tem três sócios envolvidos na Lava Jato (Odebrecht, OAS e UTC), depende de dois fatores: da liberação do financiamento restante de R$ 600 milhões do Banco do Brasil e Caixa e da retomada dos pagamentos da Sete Brasil (empresa criada para intermediar a construção de sondas da Petrobrás para exploração do pré-sal), que somam cerca de R$ 900 milhões.

No total, o Enseada construiria seis navios-sonda até 2020, num contrato de US$ 4,8 bilhões com a Sete Brasil, que vive intensa crise financeira desde que a Lava Jato foi deflagrada. “Estamos buscando uma solução alternativa de equacionamento financeiro com a Kawasaki (sócia do estaleiro) no mercado japonês, mas ainda é muito cedo para saber o resultado. No momento, o melhor seria a Sete Brasil ratificar o contrato”, diz o diretor de Relações Institucionais e de Sustentabilidade do Enseada, Humberto Rangel.

Efeito cascata

Segundo ele, de novembro pra cá, mais de 6,6 mil pessoas foram demitidas do empreendimento. Isso significou R$ 120 milhões de salários que deixaram de irrigar a economia local no período. Com as famílias desempregadas e menos funcionários de fora da região, o comércio sucumbiu ao baixo movimento. Muitos já fecharam as portas e outros não sabem até quando aguentam arcar com as despesas. Sem demanda, eles também desempregam e provocam um efeito cascata. “Tínhamos 25 vans e 25 pais de família trabalhando com a gente. Hoje tenho cinco carros e cinco funcionários”, diz o sócio da Jurere Tur, Luiz Pereira.

Ele conta que, da mesma forma que a chegada do estaleiro turbinou os negócios, a paralisia das obras devastou as finanças da empresa, que dependia quase que 100% da operação do empreendimento. Com a queda nos serviços, a transportadora teve de vender os veículos para pagar a rescisão dos funcionários e quitar sua dívida no banco. “Não temos economia para suportar essa crise. Tudo que ganhamos reinvestimos no aumento da frota. Agora que íamos começar a lucrar, a obra parou”, diz Pereira, que nasceu em São Roque do Paraguaçu e sempre trabalhou com transportes.

O vaivém das pessoas no Rio Paraguaçu, entre o estaleiro e a comunidade, também atiçou o espírito empreendedor de Antônio Severino Santos, de 66 anos. Há um ano ele, juntou o dinheiro de uma vida toda e comprou um barco por R$ 11,1 mil. Em apenas um dia, chegava a ganhar R$ 200 com as travessias de trabalhadores e visitantes. Agora consegue, no máximo, R$ 20 por dia.

A história de João dos Santos Dias envolve perdas maiores. Ex-comerciante do ramo de supermercado e vestuário, decidiu apostar na área de hotelaria para capturar os ganhos que o estaleiro traria para a região. Começou com uma pousada: conforme o estaleiro crescia, ele ampliava o número de apartamentos. Chegou a ter 325 quartos, todos ocupados. A grande empreitada, porém, foi construir um clube de 19 mil metros quadrados, com 55 apartamentos, churrasqueira, duas piscinas, campo de futebol, estacionamento e área de eventos.

Tinha um pré-acordo com uma grande empresa para alugar os quartos para os funcionários, mas não deu tempo de inaugurar. O empreendimento está parado e a pousada, fechada. Para diminuir o prejuízo, às vezes ele abre o clube aos domingos para a população local e cobra R$ 10 por pessoa. “Ganhei muito dinheiro, mas gastei tudo em novos empreendimentos”, diz Santos Dias, empresário conhecido na região.

A mesma aposta fez o dono da Pousada Ponto Dez, que hoje tem 30 quartos disponíveis e, no máximo, quatro ocupados. A expansão do estabelecimento estava no meio do caminho quando a crise estourou. A construção do prédio, de quatro andares e 70 quartos, foi interrompida e os equipamentos, guardados. Num quarto da pousada, que resiste ao escasso movimento de visitantes, foram armazenados todos os aparelhos de ar-condicionado. Até um elevador foi comprado e não tem onde ser colocado, conta um funcionário.

No empreendimento de Giodásio José Santos, os equipamentos chegaram e foram instalados. Mas ele também não teve tempo de inaugurar o restaurante, sonho antigo da mulher Ivonete Antonia de Souza Santos. Durante três anos, os dois vendiam refeições para funcionários e visitantes do estaleiro. No início, a comida era servida na varanda da residência do casal. Em pouco tempo, o espaço ficou pequeno e foi necessário investir em um novo local para servir as refeições. O restaurante foi construído no fundo da praça da comunidade Enseada do Paraguaçu, pertencente a São Roque. Ali, durante meses, eles não davam conta de tanta demanda. “Servíamos 70 almoços por dia. Na sexta-feira, até faltava comida para todo mundo”, lembra Santos.

Diante do sucesso do negócio e da promessa de que o estaleiro teria vida longa, o casal juntou todas as economias e ampliou o estabelecimento. Quando a obra chegou ao fim, no entanto, veio a notícia da paralisação do estaleiro. “Hoje, vendo uma ou duas refeições por dia. Tudo que ganhamos reinvestimos pensando que o projeto duraria uns 15, 20 anos. Agora, acumulo contas atrasadas. Foi muito bom enquanto durou.”

Se para os empresários de São Roque do Paraguaçu a situação está complicada, para os ex-funcionários do estaleiro a crise representa a interrupção de um sonho e o início de um grande problema. “Acordei de um sonho e estou vivendo um pesadelo”, afirma a técnica de segurança do trabalho Viviane Rocha de Jesus, de 30 anos, que trabalhou um ano e meio no empreendimento. Durante esse tempo, endividou-se para reformar a casa da mãe, comprou material de construção, contratou pedreiro e iniciou as obras. Mas não teve tempo e nem dinheiro para concluí-las.

Com as obras inacabadas e infiltrações que se alastram pela casa por causa da interrupção, ela ainda tem de conviver com outro drama: está inadimplente na praça. “Fiz dívida no banco para financiar a reforma da casa de minha mãe acreditando que esse empreendimento seria para décadas. Foi isso que prometeram para todos nós. Hoje, estamos sem perspectiva.” Na casa de Viviane, todos trabalhavam no estaleiro e estão desempregados. Quem mantém a casa é a mãe, Maria de Lourdes Rocha, que faz faxina e lava roupa para fora.

Nas últimas semanas, Viviane tem gasto tempo e dinheiro – que não tem – em busca de emprego na região, especialmente nas construções do metrô da capital. Mesmo caminho seguiu Leia Conceição Batista, outra ex-funcionária do estaleiro.

Separada e mãe de duas filhas, ela tem vivido os últimos meses da aposentadoria da mãe e da venda de balas, pirulitos e geladinhos. De vez em quando, consegue uma faxina e fatura cerca de R$ 40 por dia. Há alguns meses, a situação era bem diferente. “Trabalhei durante um ano e cinco meses no estaleiro. Dei muitas alegrias para as minhas filhas, comprei vários presentes.” Hoje, diz ela, é o salário mínimo da mãe que salva o dia a dia da família. “Não tenho nada. Tudo que ganhei já foi embora.” No momento, seu principal objetivo é ir embora de São Roque. Para isso, tem distribuído currículos por todos os cantos de Salvador e região.

Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada da Bahia (Sintepav/PA), Irailson Warneaux, menos de 10% das pessoas que foram demitidas do estaleiro estão trabalhando, ainda assim em obras rápidas. Em São Roque, uma das alternativas para quem continua desempregado tem sido voltar para a pesca, prática que vinha sendo abandonada com as novas oportunidades. Foi o que ocorreu com Antônio Pedro dos Santos, 30 anos, e Henrique da Conceição Cruz, de 55 anos.

No lugar do uniforme e dos equipamentos de proteção, agora eles usam uma canoa e redes para pescar. Todos os dias, saem de casa às 5 horas da manhã e só voltam depois das 15 horas, com alguns quilos de peixes. O problema é que, com a renda mais curta da população desempregada e com a crise econômica do País, eles também têm tido dificuldade para vender o pescado.

Nessa troca, do estaleiro para o rio, a renda de Santos encolheu 90%. As contas só não estão atrasadas porque tem usado o dinheiro da indenização por tempo de trabalho e também por causa dos cortes no orçamento familiar. Um deles foi tirar o filho da escola paga e colocá-lo de volta na escola pública. Na casa de Cruz, a saída tem sido cortar as regalias conquistadas com a segurança da carteira assinada. “Estamos cortando carne, iogurte e chocolates para diminuir as despesas. As crianças reclamam, mas não temos o que fazer. Pedimos a Deus que a obra retorne.”

O cenário é de desolação, diz Arilson Brito, de 46 anos, ex-eletricista do estaleiro, que trabalha no setor naval desde 1998. “A indústria parou e o comércio diminuiu. Não tem emprego para ninguém.” O dinheiro que tem conseguido para pagar as despesas da família vem de um táxi que comprou durante os anos de carteira assinada. Mesmo assim, a vida não está fácil. “O movimento caiu entre 80% e 90%. Adiamos um sonho de melhoria de vida.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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